A adoção de inteligência artificial nas empresas exige mais do que novas ferramentas. Para Maria Fernanda Merenda, Head de Gente & Gestão da Objective, o verdadeiro desafio está em criar uma cultura capaz de experimentar, aprender com erros e ampliar a capacidade humana.
A discussão sobre IA no trabalho, aliás, já ultrapassou o debate sobre substituição de pessoas por máquinas. À medida que a tecnologia avança, cresce também a necessidade de rever processos, comportamentos e, principalmente, a cultura das organizações.
Cultura do bug: o que o RH pode aprender
Um dos aprendizados que o RH pode trazer da engenharia de software está justamente na relação com o erro. No desenvolvimento de sistemas, bugs fazem parte da evolução de um produto: eles são identificados, analisados, corrigidos e incorporados ao processo de melhoria.
Essa lógica reduz o medo de errar e favorece uma adoção mais orgânica da tecnologia. Em vez de enxergar falhas como obstáculos, a cultura do bug ensina que cada erro é uma oportunidade de aprimorar o sistema.
Princípios da cultura do bug aplicados ao RH
- Identificar falhas como parte natural do processo
- Analisar erros para extrair aprendizados
- Corrigir e incorporar melhorias continuamente
- Reduzir o medo de errar e incentivar a experimentação
Profissionais seniores e o uso crítico da IA
Outro ponto destacado por Maria Fernanda é o papel dos profissionais mais experientes. Em equipes com perfil mais sênior, o repertório técnico acumulado e a capacidade crítica podem tornar o uso de IA mais consistente.
Isso porque esses profissionais tendem a compreender melhor os limites da tecnologia e a avaliar com mais profundidade a qualidade das respostas geradas. Eles atuam, na prática, como curadores das informações produzidas pela inteligência artificial, garantindo que o conhecimento técnico seja usado de forma criteriosa.
RH central na transição para IA
Nesse cenário, o RH passa a ocupar uma posição central. Em vez de atuar apenas como área de suporte, precisa ajudar a conduzir uma transição para modelos mais orientados por IA, nos quais tecnologia, pessoas e estratégia caminham de forma integrada.
Na atração e retenção de talentos, a tendência é avançar do uso operacional da IA para modelos de análise mais preditivos. Ao estruturar indicadores de engajamento, satisfação, movimentação e permanência, o RH ganha condições de identificar padrões e antecipar possíveis riscos de perda de talentos. Essa mudança reposiciona a área de gente como protagonista da transformação digital.
IA libera espaço para tarefas de maior valor
Segundo Merenda, a IA deve assumir atividades repetitivas para liberar capacidade cognitiva dos profissionais para tarefas de maior valor, como pensamento crítico, inovação e decisões estratégicas.
Para isso, a organização precisa criar um ambiente de experimentação segura, no qual profissionais possam testar soluções, aprender e adaptar novas formas de trabalho dentro de ferramentas homologadas e regras claras de governança, segurança e conformidade.
Nesse modelo, a IA deixa de ser vista como concorrente da experiência profissional e passa a funcionar como aceleradora de produtividade. O colaborador deixa de atuar apenas como executor e assume também o papel de analista, curador e revisor das entregas produzidas com apoio da tecnologia. Assim, a tecnologia se torna uma aliada estratégica, e não uma ameaça.
Recrutamento e seleção com IA
Uma cultura AI First, no entanto, dificilmente se consolida se o próprio RH não incorporar a tecnologia aos seus processos. No recrutamento e seleção, por exemplo, ferramentas de IA podem acelerar triagens, organizar informações, padronizar currículos e automatizar etapas burocráticas.
A expectativa é que essa redução do trabalho operacional permita ao recrutador dedicar mais tempo ao relacionamento com candidatos, à análise de contexto e à avaliação comportamental. A tecnologia também pode apoiar abordagens mais personalizadas em canais como o LinkedIn, cruzando informações sobre o perfil do profissional com requisitos da vaga para tornar a comunicação mais relevante. Com isso, o processo se torna mais eficiente e humano, liberando o profissional para o que realmente importa.
Competência essencial e governança
Aprender IA vira competência essencial no trabalho. O desafio já não é apenas acessar a tecnologia, mas saber utilizá-la com pensamento crítico, responsabilidade e geração de valor.
A IA muda carreiras e desafia a cultura das empresas: agentes digitais avançam sobre tarefas e decisões, enquanto organizações precisam redesenhar funções, competências e relações de trabalho. A tecnologia não vai substituir o RH, mas potencializá-lo, reduzindo o peso operacional e ampliando a capacidade estratégica da gestão de pessoas.
Desafios da nova geração de IA
- Agentic AI e Shadow AI ampliam possibilidades, mas criam desafios de segurança, controle e responsabilidade.
- Empresas aceleram IA, mas a confiança definirá o futuro dos negócios, com transparência, julgamento humano e liderança ganhando importância.
- Agentes de IA avançam, mas escala exige governança: transformar experimentação em operação exige integração, dados confiáveis, controle de riscos e capacidade de mensurar resultados.
Em resumo, a cultura do bug e a IA no RH caminham juntas na construção de um ambiente de trabalho mais adaptável e inovador.
Fonte
- mundorh.com.br
- Leia no Tec Login (teclogin.com.br)
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