Feminicídio começa antes do crime e exige resposta das empresas

Feminicídio começa antes do crime e exige resposta das empresas

O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, a maioria morta por parceiros ou ex-parceiros. O ambiente de trabalho, muitas vezes visto apenas como local de produtividade, pode representar uma importante rede de proteção e autonomia para mulheres em situação de violência. Diante desse cenário, especialistas apontam que as empresas precisam ir além do discurso e adotar medidas concretas de prevenção e acolhimento.

Sinais de alerta surgem antes do crime

Também foram contabilizadas 4.189 tentativas de feminicídio no período, uma alta de 5,9% em um ano. Para cada crime consumado, portanto, ocorreram quase três tentativas registradas pelas autoridades. Esses números revelam que a violência não explode de repente; ela se constrói em uma escalada de agressões, ameaças e controle.

O avanço acontece mesmo diante da redução de 5,5% no total de homicídios de mulheres. Dos 3.539 assassinatos femininos registrados em 2025, 44,4% foram classificados como feminicídio — a maior proporção desde a criação dessa categoria penal. Isso indica que, embora menos mulheres estejam sendo mortas, a motivação de gênero está cada vez mais presente nos crimes.

Na maior parte dos casos, o agressor não é um desconhecido. Em 2025, parceiros atuais foram responsáveis por 60,9% dos feminicídios, enquanto ex-parceiros responderam por outros 18,9%. Juntos, esses dois grupos aparecem em praticamente oito de cada dez crimes. A proximidade entre vítima e agressor torna o ambiente doméstico um dos locais mais perigosos.

Perfil das vítimas e circunstâncias

O espaço doméstico, que deveria representar segurança, também concentra a violência. Mais de 62% das vítimas foram mortas em sua residência ou na casa do agressor. Outros 19,7% dos crimes ocorreram em vias públicas. As armas brancas, como facas, foram empregadas em 50,8% dos casos. As armas de fogo apareceram em 22,5%. Agressões físicas sem o uso de armas representaram 10,7%, o que reforça a dimensão de proximidade e brutalidade desses crimes.

A maioria das vítimas estava em idade economicamente ativa. Mulheres entre 25 e 44 anos corresponderam a 56,5% dos registros. Mulheres negras representaram 65,1% das vítimas, evidenciando como desigualdades de gênero, raça, renda e território podem se sobrepor e dificultar o acesso à proteção. Esses dados mostram que o feminicídio atinge diretamente a força de trabalho, com impactos para as empresas e para a economia.

Naturalização da violência e mitos

É comum que crimes dessa natureza sejam apresentados como resultado de ciúme, paixão ou uma discussão que saiu do controle. Essas expressões, porém, reduzem um problema estrutural a um episódio emocional e podem suavizar a responsabilidade do agressor. O ciúme não é a causa do feminicídio. No centro da violência estão relações de poder desiguais, o sentimento de posse sobre a mulher e a crença de que o homem pode controlar suas decisões, seus relacionamentos, seu corpo, seu trabalho e sua liberdade.

Álcool, drogas, desemprego e dificuldades financeiras podem agravar conflitos, mas não devem ser tratados como causas isoladas ou justificativas. A maior ameaça aparece quando esses fatores se combinam com histórico de agressões, ameaças, perseguição, acesso a armas e comportamento controlador. A decisão de terminar um relacionamento não causa o feminicídio, mas pode representar um período de maior perigo. Para o agressor que enxerga a mulher como propriedade, a separação significa perda de controle.

Indicadores de risco e barreiras

Ameaças de morte, perseguição presencial ou digital, tentativas de invasão da residência, descumprimento de medidas protetivas, violência sexual, estrangulamento anterior e acesso a armas estão entre os principais indicadores de risco elevado. A dependência econômica continua sendo uma das barreiras para o afastamento. Quando a mulher teme perder o emprego, a renda ou a possibilidade de sustentar os filhos, sair de uma relação violenta se torna ainda mais difícil.

Em 2025, foram registrados 132.025 descumprimentos de medidas protetivas de urgência, aumento de 16,7% em comparação com o ano anterior. Os números mostram que a concessão da medida, embora essencial, precisa ser acompanhada de fiscalização, avaliação contínua do risco e resposta rápida diante do descumprimento. Essas proporções não significam que todos os registros estejam ligados posteriormente às mesmas vítimas de feminicídio. Ainda assim, revelam o volume de sinais que chegam às instituições antes que uma violência possa alcançar seu desfecho mais grave.

Percepção da violência e papel das empresas

A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher 2025, do DataSenado, ouviu 21.641 brasileiras. Quando questionadas diretamente, 27% afirmaram já ter sofrido violência doméstica ou familiar praticada por um homem. Quando a pesquisa apresentou uma relação de situações específicas — como humilhações, ameaças, controle, coerção e agressões —, 34% reconheceram ter vivido pelo menos uma delas nos 12 meses anteriores. A diferença sugere que parte das mulheres enfrenta situações violentas sem identificá-las imediatamente dessa forma. A naturalização do controle e da violência psicológica pode atrasar a busca por ajuda.

O feminicídio não é um problema restrito à vida privada. A violência doméstica atravessa o trabalho por meio de faltas, queda de produtividade, dificuldades de concentração, afastamentos, danos à saúde mental e ameaças feitas durante o expediente. Empresas que reconhecem esses sinais e oferecem suporte — como canais de denúncia, orientação jurídica, flexibilização de horários e treinamento de lideranças — podem contribuir para interromper ciclos de violência antes que se tornem fatais.

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