Empresas sofrem com o desenvolvimento de competências

Empresas sofrem com o desenvolvimento de competências

Levantamento global do Grupo Cegos, conduzido no Brasil pela Crescimentum, mostra que as empresas estão longe de acompanhar o ritmo das transformações no desenvolvimento de competências. O Barômetro Internacional Cegos 2026 ouviu 5.524 colaboradores e 498 líderes de Recursos Humanos e treinamento em 11 países, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.

Segundo o estudo, o ponto central está na transformação da própria natureza do trabalho. Adaptação contínua, aprendizagem e empregabilidade passam a integrar diretamente a estratégia das empresas. Nesse cenário, a qualificação profissional deixa de ser uma ação pontual e ganha contornos estratégicos.

Tecnologia impulsiona a mudança

Para as lideranças de Recursos Humanos, a tecnologia aparece como principal motor dessa transformação. Globalmente, os fatores que mais devem impactar as competências no curto prazo são:

  • IA e automação: 68% das menções;
  • Evolução dos sistemas de informação e cibersegurança: 41%;
  • Novas formas de organização do trabalho: 33%.

Os percentuais evidenciam que a digitalização domina a agenda de capacitação e pressiona as organizações a revisar prioridades. O desafio, nesse contexto, é garantir que os profissionais acompanhem um ambiente em constante mudança.

A pesquisa mostra, assim, que os trabalhadores também sentem os efeitos das mudanças.

Insegurança atinge trabalhadores

Entre os colaboradores, a insegurança já aparece de forma clara. O levantamento registra que 31% temem que seu emprego desapareça, enquanto 74% acreditam que a natureza de seu trabalho será modificada.

Esses índices apontam para um ambiente de apreensão e incerteza, especialmente em funções mais expostas à automação. A possibilidade de mudança na natureza do trabalho, mencionada por 74% dos profissionais, indica que a adaptação deixou de ser opcional.

Ao mesmo tempo, as empresas começam a olhar novamente para dentro antes de recorrer automaticamente ao mercado em busca de novos profissionais.

Empresas priorizam talentos internos

Parte importante das organizações está mudando sua estratégia de talentos com foco naqueles que já pertencem aos seus quadros. Os dados indicam que:

  • 65% das áreas de RH priorizam a requalificação dos talentos internos;
  • 57% apoiam a mobilidade dos profissionais para outras funções.

O recrutamento de novos perfis perdeu força, o que representa uma inversão em relação à lógica tradicional de contratar fora para suprir lacunas. Nessa nova lógica, o desenvolvimento de competências não é apenas uma alternativa, mas uma necessidade central na gestão de pessoas. Com isso, a área de Recursos Humanos assume papel mais próximo do negócio.

Percepções divergem na prática

Mesmo com esse movimento interno, a pesquisa revela um descompasso entre o que as empresas acreditam entregar e o que os profissionais recebem. Um dos pontos mais reveladores do Barômetro está na diferença entre aquilo que as organizações dizem oferecer e aquilo que os colaboradores experimentam na prática.

Enquanto 77% dos líderes de RH afirmam que suas organizações são ágeis para atender às necessidades de treinamento, 41% dos colaboradores dizem que a resposta chega tarde demais, algumas vezes semanas ou até meses depois do surgimento da demanda.

Esse contraste mostra que a capacidade de responder com rapidez ainda é um gargalo. A distância entre a percepção das lideranças e a vivência dos colaboradores evidencia a complexidade do problema.

Velocidade e contexto são decisivos

Para a Crescimentum, a solução passa por repensar o momento da aprendizagem. Veronica Ahrens, Sócia-Diretora de Learning & Development e Head das Soluções de Liderança na Crescimentum, afirma que o problema deixou de ser simplesmente oferecer formação e passou a envolver também velocidade, contexto e oportunidade.

Segundo a executiva, a aprendizagem precisa acontecer no momento em que pode ajudar o profissional a responder ao desafio que está enfrentando. Aprender depois que o problema já passou pode ter pouco impacto sobre a competência que a empresa precisava desenvolver naquele momento.

A sensação de que determinadas habilidades estão perdendo validade também aparece nas respostas dos trabalhadores. Esses elementos indicam que a capacitação precisa ser desenhada sob medida para o contexto de cada equipe.

Os resultados do Barômetro Internacional Cegos 2026 indicam que o desenvolvimento de competências não pode ser tratado como uma etapa isolada. Em um cenário de transformação da natureza do trabalho, adaptação contínua e aprendizagem ágil tornam-se elementos centrais da estratégia corporativa. O estudo deixa claro que a velocidade da resposta é tão importante quanto o conteúdo oferecido.

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