No portal Mundo RH, a colunista e especialista em Longevidade Profissional Flavia Perez desenvolveu um dicionário próprio para nomear a transição de carreira na segunda metade da vida profissional. Além disso, autora do best-seller “A Primeira Segunda-feira após a Carreira Executiva” e cocriadora do Método ANCOR, ela criou cinco palavras que traduzem experiências comuns a quem atravessa essa fase. Em seguida, ela apresenta três delas.
Por que a transição de carreira é tão difícil de entender?
Há uma fase da carreira que é fácil interpretar errado. Você continua trabalhando, entregando resultados e ocupando uma posição relevante. No entanto, alguma coisa mudou. O próximo cargo já não desperta o mesmo interesse, o ritmo começa a pesar e outras formas de trabalhar passam a chamar atenção, mesmo sem uma imagem clara do que virá depois.
Quando a pergunta “o que está acontecendo comigo?” surge, as palavras disponíveis parecem insuficientes. Por exemplo, cansaço, desmotivação, crise, dúvida, vontade de mudar. Esses termos, portanto, não dão conta do que está sendo vivido.
Assim sendo, ainda tentamos compreender a segunda metade da vida profissional com um vocabulário construído para a primeira.
O vocabulário da primeira metade da vida profissional
Aprendemos a nomear promoção, crescimento, ambição, sucesso e aposentadoria. Além disso, temos linguagem para falar sobre o que acontece quando a carreira continua dando certo, mas nossos critérios de sucesso começam a mudar.
É nesse ponto que conceitos como o nodus tollens ganham relevância. Ou seja, o termo descreve o momento em que a narrativa que construímos sobre nossa própria vida já não parece explicar para onde estamos indo.
Koenig, criador do Dicionário de Tristezas Obscuras, não inventa as experiências; ele dá nome ao que já estava sendo vivido. A psicologia chama de affect labeling o ato de colocar estados emocionais em palavras. Nomear, consequentemente, ajuda a distinguir fenômenos que, quando permanecem misturados, parecem apenas um grande desconforto.
O dicionário de Flavia Perez para os próximos ciclos
Inspirada pelo dicionário de Koenig, Flavia Perez começou a pensar em criar um dicionário sobre longevidade e próximos ciclos profissionais. Dessa forma, chegou a cinco palavras criadas por ela mesma. “Cada palavra nos conta uma história e sentimentos possíveis de muitas transições”, escreve a colunista. Entre elas, três ganham destaque: Horizontia, Avessia e Entressi.
- Horizontia: ou seja, a mistura de surpresa, liberdade e inquietação ao perceber que há mais vida produtiva pela frente do que se planejou.
- Avessia: por outro lado, o desejo crescente de experimentar uma forma de trabalhar diferente da que estruturou a carreira.
- Entressi: a sensação de habitar o espaço entre duas versões de si.
Horizontia: o tempo que se expande
Portanto, a Horizontia é descrita como a mistura de surpresa, liberdade e inquietação que surge quando percebemos que existe muito mais vida produtiva pela frente do que havíamos planejado.
Por exemplo, alguém chega aos 50 ou 55 anos e percebe que pode ter ainda quinze, vinte ou mais anos de desejo e capacidade para continuar produzindo, aprendendo e contribuindo. Grande parte de nós, no entanto, nunca construiu um projeto profissional para um horizonte tão longo.
A palavra fala de tempo. Em resumo, é a constatação de que aquele ponto que durante anos pareceu uma linha de chegada deixou de ser o fim da estrada.
Avessia: o desejo por uma nova forma de trabalhar
A Avessia nomeia o desejo crescente de experimentar uma forma de trabalhar diferente daquela que estruturou a carreira até aqui. Contudo, não é preciso rejeitar a trajetória construída. Além disso, podemos reconhecer tudo o que ela nos proporcionou e, ainda assim, perceber que os critérios mudaram:
- Mais autonomia;
- Outro ritmo;
- Maior liberdade sobre o tempo;
- Projetos diferentes;
- Menos poder formal e mais influência.
Se a Horizontia diz “há mais tempo pela frente do que eu imaginava”, a Avessia acrescenta: “não quero necessariamente vivê-lo da mesma maneira.” Os ingredientes que nos trouxeram até aqui não precisam ser exatamente os mesmos que queremos levar para o próximo ciclo. Consequentemente, quando o desejo muda, a identidade também pode começar a se mover.
Entressi: a identidade em transição
O Entressi é a sensação de habitar o espaço entre duas versões de si: aquela que já não nos define por inteiro e aquela que ainda estamos aprendendo a ser. Dessa forma, quando essa identificação começa a perder força, surge um desconforto particular.
A pessoa ainda é quem sempre foi profissionalmente, mas aquela definição já não parece suficiente. Por outro lado, a próxima identificação ainda não está pronta.
Por exemplo, durante muitos anos, cargo, empresa e profissão oferecem respostas eficientes para a pergunta “o que você faz?”. Além disso, essas respostas carregam mais do que uma ocupação: trazem pertencimento, status, repertório, relações e reconhecimento. Ou seja, o Entressi fala justamente dessa zona de transição identitária.
O poder de nomear a transição
Assim sendo, ao apresentar essas palavras, Flavia Perez convida os leitores a pensar que nome dariam para suas próprias transições. “Te convido a conhecê-las e pensar que nome você daria”, escreve.
A aposta é que, ao nomear experiências, seja possível atravessá-las com mais clareza. Portanto, o dicionário se torna uma ferramenta para aqueles que percebem que a ambição mudou de forma, mas ainda não encontraram as palavras para dizer o que vem depois.
Fonte
- mundorh.com.br
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