O corpo parou onde a mente não conseguia
Numa manhã de segunda-feira, a diretora de Recursos Humanos não conseguiu sair do carro no estacionamento da empresa. Ela permaneceu sentada, com as mãos no volante, olhando para o prédio onde havia construído uma carreira admirada. O celular vibrava com mensagens do presidente, convites para reuniões, cobranças sobre o orçamento e uma apresentação sobre saúde mental. O corpo dela havia decidido interromper uma negociação que a mente adiava havia meses.
A executiva que cuidava de todos já não conseguia cuidar de si. O burnout era construído lentamente, em cada almoço interrompido, cada férias adiadas, cada mensagem enviada fora do expediente e cada elogio dirigido a quem permanecia disponível o tempo inteiro. A empresa conhecia os sinais, mas preferia chamá-los por outros nomes. O problema nunca foi apenas a quantidade de trabalho; foi a naturalização do excesso.
Vídeo: YouTube | Fonte: mundorh.com.br
Do relatório ao conselho
O burnout deixou de ser apenas um número no relatório de afastamentos e ganhou nome, cargo, salário e acesso à sala do conselho. Foi necessário que alguém do alto escalão adoecesse para que a dor dos demais ganhasse legitimidade. Alguns problemas só passam a existir oficialmente quando alcançam pessoas consideradas indispensáveis. O transtorno não reconhece organograma, mas a organização sim.
Base e topo: duas respostas diferentes
Enquanto o burnout atinge a base, a organização costuma buscar culpados; quando chega ao topo, procura causas. Na base, pergunta-se se o profissional possui inteligência emocional; no alto escalão, investiga-se a sobrecarga, a governança, a pressão por resultados e o desenho do trabalho. Para uns, recomenda-se descanso; para outros, redesenham-se estruturas inteiras. O RH nem sempre tem autorização para praticar internamente aquilo que recomenda aos outros.
O retorno que silenciou a sala
Quando a diretora retornou, meses depois, disse que não queria ser exemplo de força por ter sobrevivido a um ambiente que precisava mudar. A frase produziu um silêncio raro na sala do conselho. O burnout passou a ser tratado com a seriedade que deveria ter recebido quando atingia profissionais sem poder, visibilidade ou influência. A empresa conhecia os sinais, mas preferia chamá-los por outros nomes.





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