A discussão sobre o fim da escala 6×1 não deve ser reduzida a uma oposição simplista entre trabalhadores e empresas. Para Guilherme Wünsch, consultor trabalhista do escritório Calcini Advogados e professor da Unisinos/RS e da UFRGS, a superação progressiva da lógica de seis dias consecutivos de trabalho para apenas um dia de descanso pode ser compreendida como um movimento estratégico de proteção à saúde mental. Em diálogo com a NR-1, que trata do gerenciamento de riscos ocupacionais, a escala 6×1 passa a ser vista não apenas como questão de jornada, mas como fator de risco psicossocial.
Escala 6×1 e riscos psicossociais
A questão central deixa de ser apenas “quanto tempo se trabalha” e passa a ser “em que condições psicofísicas o trabalho é prestado, mantido e repetido ao longo do tempo”, explica Wünsch. A escala 6×1 produz uma organização temporal do trabalho marcada por baixa margem de recuperação psicofísica. O problema não está apenas na quantidade abstrata de horas, mas no modo como a jornada estrutura a vida do trabalhador.
Seis dias consecutivos de trabalho comprimem o tempo de descanso, dificultam a convivência familiar, reduzem a previsibilidade da vida social e tornam o repouso semanal uma pausa, muitas vezes, insuficiente para a recomposição física, mental e emocional. Em setores como comércio, serviços, alimentação, vigilância, limpeza, saúde, hotelaria e atendimento ao público, a escala 6×1 normalmente se associa à alta intensidade de demandas, metas, contato direto com clientes, pressão por produtividade, alternância de folgas, entre outros fatores.
É justamente esse conjunto de intensidade, repetição, baixa autonomia, insuficiência de recuperação e conflito entre vida laboral e vida privada que transforma a jornada em fator de risco psicossocial relacionado ao trabalho, segundo o consultor.
Vídeo: YouTube | Fonte: mundorh.com.br
Saúde mental como gestão de riscos
A saúde mental deixa de ser apenas tema de recursos humanos, benefício corporativo ou discurso de bem-estar, passando a integrar o núcleo duro da gestão obrigatória de riscos ocupacionais. A NR-1, que estabelece as diretrizes do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), exige que o empregador identifique, avalie e controle os riscos psicossociais, incluindo aqueles decorrentes da organização do trabalho.
O empregador não será cobrado apenas por oferecer palestras, campanhas de Setembro Amarelo, canais de escuta ou programas genéricos de qualidade de vida. A fiscalização e a responsabilidade civil podem avançar sobre a própria estrutura da jornada, caso ela se mostre nociva à saúde mental dos trabalhadores.
Para Ricardo Calcini, professor de Direito do Insper e sócio do Calcini Advogados, a discussão sobre o fim da escala 6×1 deve ser encarada como parte de uma estratégia empresarial de compliance trabalhista e prevenção de danos. “Não se trata apenas de atender a uma reivindicação social, mas de adequar a organização do trabalho às exigências legais de proteção à saúde”, afirma.
Estratégia empresarial e conformidade legal
Wünsch ressalta que a superação da escala 6×1 pode ser vista como investimento em produtividade sustentável, redução de afastamentos por transtornos mentais e melhoria do clima organizacional. “Empresas que já adotam jornadas mais flexíveis ou escalas com mais dias de descanso relatam ganhos em engajamento e retenção de talentos”, observa.
A NR-1, ao incluir os riscos psicossociais no PGR, cria um dever jurídico de revisão de práticas que historicamente eram consideradas normais. A escala 6×1, por sua baixa margem de recuperação, tende a ser cada vez mais questionada como modelo compatível com a saúde mental.
Calcini complementa que o debate não se encerra na eliminação da escala, mas na construção de alternativas que respeitem os limites psicofísicos dos trabalhadores. “A questão central é garantir que o descanso seja efetivo e que a jornada não comprometa a saúde”, conclui.




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