A ansiedade no trabalho, quando se torna crônica, deixa de ser um mecanismo natural de alerta e passa a representar risco para a saúde, a carreira e os resultados das empresas. A psicóloga Blenda Oliveira, doutora pela PUC-SP, explica como a ansiedade se manifesta nos pensamentos, no corpo e no comportamento, e por que RHs e lideranças precisam criar ambientes mais seguros e menos reativos.
O ciclo completo da ansiedade
Segundo Blenda, compreender a ansiedade de forma integrada é essencial. “Sem essa leitura integrada, a pessoa tende a tratar apenas sintomas isolados, sem acessar o ciclo completo da ansiedade”, afirma. No ambiente corporativo, a ansiedade muitas vezes se disfarça de excesso de responsabilidade, perfeccionismo ou alta performance. Os efeitos práticos aparecem rapidamente: tomada de decisão mais lenta, excesso de análise, evitação de riscos necessários, busca constante por aprovação e perda de oportunidades.
Vídeo: YouTube | Fonte: mundorh.com.br
Corpo dá o primeiro alerta
A ansiedade nem sempre começa com uma percepção clara do pensamento. Muitas vezes, o corpo manifesta o alerta antes mesmo de a pessoa entender o que está acontecendo. O sistema nervoso autônomo, especialmente o eixo de luta ou fuga, reage rapidamente diante da percepção de ameaça. Manter o organismo em estado de alerta por longos períodos cobra um preço alto: taquicardia, hipervigilância e tensão constante fazem o cérebro priorizar a sobrevivência, não tarefas complexas.
Comportamentos variados sob pressão
Quando se fala em ansiedade no trabalho, nem sempre o comportamento será o mesmo. Algumas pessoas procrastinam. Outras entram em estado de agitação excessiva. Há também quem paralise diante da sobrecarga. Há ainda a resposta de congelamento, conhecida como freeze response, em que a sobrecarga cognitiva é tão intensa que a pessoa simplesmente trava.
Ferramentas para lidar com pensamentos
Uma das técnicas utilizadas na Terapia Cognitivo-Comportamental para lidar com pensamentos automáticos é o teste de realidade. Algumas perguntas ajudam nesse processo:
- Qual é a evidência concreta disso?
- Estou interpretando ou observando fatos?
- Qual é a probabilidade real desse cenário acontecer?
- Existe uma explicação alternativa?
- O que eu diria a outra pessoa se ela estivesse pensando da mesma forma?
A prática não elimina desafios reais, mas ajuda a reduzir o pensamento catastrófico. No ambiente de trabalho, essa habilidade pode ser decisiva. Profissionais que conseguem diferenciar fato de interpretação tendem a responder com mais clareza a cobranças, feedbacks, conflitos e decisões sob pressão.
Ambiente de trabalho como fator
Embora a ansiedade tenha uma dimensão individual, ela também é influenciada pelo ambiente. A ansiedade não nasce apenas de características individuais. Ambientes confusos, reativos, imprevisíveis e sobrecarregados podem intensificar sintomas e transformar o trabalho em fonte contínua de ameaça. Para as empresas, o desafio está em compreender que ambientes ansiosos produzem respostas ansiosas.
O papel das lideranças e RH
Entre as boas práticas estão capacitar lideranças para reconhecer sinais, promover conversas abertas e sem julgamento, oferecer canais de apoio, como programas de assistência psicológica, respeitar limites e preservar a privacidade dos profissionais. A ansiedade não deve ser romantizada como sinal de comprometimento, nem reduzida a falta de controle emocional. A resposta das empresas não deve ser o julgamento, mas a criação de ambientes em que seja possível conversar, prevenir, apoiar e ajustar rotinas antes que o sofrimento se transforme em afastamento, adoecimento ou perda de talentos.




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